• Betweien

A educação para a saúde mental

A educação é o processo de facilitar a aprendizagem ou a aquisição de conhecimentos, habilidades, valores, crenças e hábitos. Considera-se a educação o elemento fundamental para a mudança. E é, segundo Mandela, o grande motor do desenvolvimento pessoal. É o que nos alimenta intelectualmente e o que faz de nós pessoas mais completas.

A saúde, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doenças. Foco no bem-estar mental, que é tantas e tantas vezes esquecido ou confundido com estar feliz ou estar triste, quando a saúde mental vai muito para além disso. A OMS também define a saúde mental como «o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere».

Mas mais do que explorar definições, é importante realçar que a educação e a saúde mental são dois temas complexos e relacionáveis. Carlos Drummond de Andrade disse que “a educação visa melhorar a natureza do homem, o que nem sempre é aceite pelo interessado”. Existe quem não pretenda melhorar a sua natureza. No caso em concreto da saúde mental, há muita gente que parece desinformada. E o que é efetivamente grave é haver pessoas que não são educadas porque a informação não chega até elas. E se integrarmos os dois conceitos num só? A educação para a saúde mental - é inegável que ainda se fala pouquíssimo deste tema.


Encontro-me a escrever este texto depois de ter terminado uma das apresentações da associação que presido, sobre esquizofrenia. Passei três horas à volta de artigos e a tentar fazer chegar o meu conhecimento médico de estudante de medicina ao mais comum dos mortais, com vista a desmistificar e informar. E fi-lo porque considero que a nossa missão é importante para tantos e tantos que continuam a sofrer de estigma por parte de uma sociedade pouco educada para esta temática. Confúcio disse em tempos "se não sabes, aprende; se já sabes, ensina." e é isso que tentamos fazer no seio da nossa estrutura, transmitindo o nosso conhecimento técnico e científico.


É complicado ouvir a minha mãe a queixar-se que tem um colega de trabalho esquizofrénico que parece que vai sob o efeito de drogas trabalhar. Felizmente, ela tem uma filha que estando devidamente informada, pode explicar-lhe que na verdade ele vai medicado, porque tem esquizofrenia e deve tomar antipsicóticos que têm alguns efeitos secundários e o podem deixar lentificado. Mas e todos os que não têm alguém que lhes transmita o conhecimento e que se alimentam da pouca informação descontextualizada que filtram dos exemplos que passam nos programas da televisão?


Custa ainda ler estudos em que se demonstrou que a maioria das pessoas tem medo de trabalhar com alguém com uma doença deste tipo, muitas vezes sem saber sequer os sintomas da mesma, de que modo se manifestam e de que modo a terapêutica adequada pode conseguir inserir estes doentes na sociedade. Urge deixar de fazer dos doentes mentais pessoas ostracizadas pelos demais. E urge acima de tudo entender que os conceitos de saudável e doente são mais mutáveis do que a maioria das pessoas pensa e que ninguém é livre de sofrer de depressão ou de ansiedade em determinada fase da vida.


A educação para a saúde mental é um dos grandes focos da The Pineapple Mind - Associação de Sensibilização para a Saúde Mental. Porque mais do que sensibilizar, levamos até às pessoas conteúdos semanais que também informam e educam, através das nossas redes sociais e blogue. E queremos fazer o mesmo em palestras presenciais, com apresentações dedicadas a diferentes públicos-alvo, desde crianças a idosos, desde doentes a familiares ou amigos dos mesmos, desde estudantes até empresas. É mesmo relevante para nós chegar até todas as pessoas e que ninguém fique esquecido. Somos uma associação sem fins lucrativos que acaba por atuar colmatando uma falha que há na sociedade e no próprio Estado, a de educar para esta realidade e erradicar o estigma associado à falta de informação.



Mas urge levar a educação para a saúde mental mais longe - a todos. Urge fazer desta uma das prioridades a incluir nos programas educativos desde cedo, para que se formem seres humanos cientes da importância da prevenção e da promoção da saúde mental.


As escolas devem formar cidadãos e os valores da tolerância e do respeito são essenciais para uma educação efetiva. E claramente a educação para a saúde mental é uma falha bem grande no sistema de ensino. A título de exemplo, quantos estudantes do ensino secundário não sofrerão de ansiedade? Para esses, as avaliações, os exames e a entrada na faculdade pode ser um momento de descompensação brutal e como é que essas pessoas são ajudadas?

É importante aprenderem a relativizar os sentimentos, não fomentar a competitividade e os sentimentos de "tudo ou nada" e de frustração. A psicoeducação ainda não chega a todos, porque mesmo havendo psicólogos escolares em todas as escolas, eles são poucos para poderem chegar a todos os alunos e acabam por trabalhar apenas com os mais problemáticos.


Os jovens universitários cada vez mais procuram serviços de apoio psicológico oferecido pelas instituições de ensino superior. Chega-se à conclusão que muitas vezes já têm patologias que são provenientes de falhas no seu crescimento emocional e desenvolvimento. Se a vertente emocional e o autoconhecimento for promovido desde cedo na escola muitos quadros mais complicados podem ser evitados. A aposta na literacia para a saúde mental dada por quem sabe educar para este tema é no fundo trabalhar para a prevenção.


Porque mais do que estudantes, as escolas devem formar pessoas. Pessoas cientes que a saúde vai muito para além da tal ausência de doença. E que as doenças vão muito para além daquilo que é palpável nos grandes sistemas que se debatem quando se fala do corpo humano em ciências naturais ou em biologia. E pode ser que desse modo, daqui a alguns anos, formemos uma sociedade efetivamente educada para a saúde mental, ciente da sua importância e tolerante com os demais.

Diana Pereira é a fundadora da associação sem fins lucrativos "The Pineapple Mind". Atualmente a cursar medicina, Diana viu na psiquiatria a possibilidade de ser mais ativa e de ter um papel mais interventivo em matérias relativas à saúde mental. Fruto desta paixão, surgiu a associação "The Pineapple Mind". "The Pineapple Mind" é uma associação jovem, sem fins lucrativos, constituída em maioria por membros dos 18 aos 30 anos de idade, tendo como missão: Desenvolver atividade direcionada à sensibilização para a saúde mental, fomentando a saúde e bem-estar psicológico da população em geral, através da difusão de informação legítima, autêntica e útil com vista ao combate da estigmatização e da desinformação em relação à doença mental. Poderão saber mais sobre esta associação em www.thepineapplemind.pt.

98 visualizações

© Betweien, Lda., 2018 - Todos os direitos reservados.

  • Facebook Betweien
  • Instagram Betweien
  • Linkedin Betweien
  • Youtube Betweien